Estava na praia, isolada com minhas filhas, em meio à enchente de maio de 2024.
Deixei meus pais para trás, para ter um tempo com minha até "então família".
Eram os últimos dias dele, e eu vi isso quando falei com ele pela última vez ao telefone.
Lembro que estava com medo de estar perto dele, medo de ter que encarar a dura e cruel realidade,
aquela que eu tanto prezo, a que eu insisto em viver por mais que seja cruel.
De certa forma eu sabia, dentro e fora, estava bem nítido que ele não estava bem, mesmo.
Meu pai foi o homem da minha vida. Mesmo o odiando muitas vezes,
mesmo querendo ficar longe pra sempre. Ele sempre foi meu parceiro, meu cúmplice,
meu crítico mais ferrenho (e único crítico de fato), meu inquisidor, minha régua, a pedra no meu sapato,
meu piloto da nossa espaço nave (o puma branco que era meu xodó) e também meu herói, mesmo sendo o oposto disso.
Ele tinha algo de magnífico, catastrófico, medroso, gago, imponente, sábio,
tímido, maconheiro.
Sinto tanta falta de fumar um com ele. tanta, tanta, tanta mesmo.
O cheiro da gaveta dele, que era o cheiro da minha infância, misturava maconha,
com cordas de aço de violão, piteiras, restos de tabaco dos cigarros, tinha papel e
mais algumas coisas que poderia chutar como palhetas, chicletes mordidos,
canetas sem tampa, uma fitatape já reutilizada milhões de vezes (gravada com a mesma musica repetidamente dos dois lados). Talvez também tivesse algum livro, chuto que seja aquele que já está comigo ha muito tempo: Minutos de sabedoria. O qual uso hoje para me comunicar com ele.
Que louca. Ele tem um tamanho que talvez nunca soubesse, ou talvez soubesse mas não se importava.
Mas eu sempre soube, do início ao fim, e uma prova disso foi o episódio na escola, quando ainda muito pequena (a ponto de não saber ler e nem escrever na época) me questionaram, em uma daquelas apresentações para o dia dos pais: Jéssica, por que você ama o seu pai?
Prontamente eu respondi sem pestanejar: Porque ele é meu pai. Simples assim, então escuto algumas risadas pela plateia, de outros pais, óbvio, que surpresos com minha rápida resposta, um tanto ingênua, porém autêntica, sentiram uma pontinha de inveja, eu sei. Na verdade o que eles mais queriam era que os seus filhos também respondessem o mesmo que eu, ao contrário do que disseram: amo meu pai porque ele me dá presentes, me leva ao shopping ou para tomar sorvete, algo assim dessa esfera tão banal, simplista. Aliás, não lembro de ter sido levada por ele, uma única vez, ao shopping quando criança. Prioridades, não é mesmo? Só fizemos isso, em seus últimos anos, quando fomos juntos comprar calças jeans e camisas na Levis, as quais herdei e uso as vezes. Não sei porque esse episódio também ficou na minha memória.
De fato pai, admito que você teve uma filha diferente, e você sabia, e você era feliz por isso.
Só não queria me contar, pra eu não ficar convencida.
Na verdade pai, não lembro se em algum dia em nossas vidas, você chegou a dizer: eu te amo.
Mas em compensação você me trouxe tudo o que o amor (do seu jeito) podia me dar: coerência,
firmeza, força, determinação, convicção, um certo grau de dureza, proteção e coragem.
Você me ensinou as melhores lições da minha vida, e se isso não é amor, eu não sei o que é.
Idiota! (mas a entonação é rápida e forte,
em um tom de aspereza sarcástica,
uma piada interna)
Fora que você me ensinou a ser autodidata, gamer, programadora, violeira amadora, grande amante dos filmes de ficção e terror, lutando eternamente para que eu não ficasse desafinada pra toda vida.
Não posso esquecer também de mencionar a história que começamos a escrever juntos no nosso
486, com sistema DOS, tela preta, letras verde e rosa. Era uma história pós-apocalíptica sobre um pai e uma filha que só se alimentavam com pílulas comestíveis, só lembro bem mesmo dessa parte.
Juro que eu poderia ficar infinitamente por aqui lembrando de tudo que a gente viveu juntos e também separados. Mas só pra não deixar de mencionar, uma das épocas mais legais que eu lembro,
era de quando nos reuníamos todas as noite em frente à tv da sala, por volta das 20h,
para assistir ao Beaves e Buthead, a gente se divertia muito. I am a cornolho!!!
PS.: a tua amadora está aqui, em volta de algumas questões, mas conseguindo voltar ao teu luto,
que me fora temporariamente "roubado", mas já devolvido. Vamos ter bastante tempo ainda
para conversar e acertar as contas. Te amo.
Que saudade!
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