Estou atrasada, perdão. Me demorei muito longe de ti. Insistia em viver livre e que seria livre longe e não junto de você. Me esqueci de te perguntar muitas coisas. Estou atrasada, pensando em todos os sábados em que você não estava. Em todos os eventos importantes que eu te queria presente e minha vista não te achava, teu abraço ficava distante, sempre foi assim né? Não me lembro de muitos abraços, na verdade pouquíssimos nos demos, que pena. A dinâmica entre a gente era mais sobre criar, ver filmes, ouvir e decorar músicas, e como isso era bom! Você mantinha meu mundo girando e mesmo sem perceber me instigou a pensar, desde muito cedo, PAI.
Mesmo atrasada eu quero vir te contar, que, talvez eu nunca tenha te agradecido por tudo isso. Então, obrigada. Tudo pode começar de uma forma agradável, principalmente uma história, uma ficção, que aliás as científicas eram uma das tuas preferidas. Só que Me dei conta, do nada, que sou uma ressentida. Sim. Que loucura, que absurdo, que ilógico, que cafona Jessica.
Mas sim, você é Jessica, aceita isso, pra ver se por acaso dói menos, tá bem?
Quem disse? Não dói menos, em nada, isso não muda nada, só o fato de que a realidade, além de ácida e áspera, também faz de você ainda mais ressentida, e por consequência, triste.
Esse é mais um sábado que você não está, na verdade, esse é mais um sábado que eu não estou, que eu não estive, que eu desperdicei sem estar com você, PAI.
PAI, nunca imaginei o tamanho que a sua falta iria me fazer. Eu tenho vergonha de pensar que o meu choro automático, meu vazio buraco no lugar de um estômago é só transferencia, sabe? Fico me achando a maior impostora do universo. Parece que te uso para manipular a tristeza, pra poder sentir, pra poder escrever, pra poder ser alguém e não um clone, uma ovelhinha como você costumava dizer. Essa parte mesmo não lança mão de desaparecer, sabe? Você falando, milhões de vezes, para não ser ovelhinha, PAI, você continua falando na minha cabeça. Você lembra? Não lembra né, porque você não existe, nem nunca existiu, só através de mim, dos meus olhos, do meu coração e agora dos meus pensamentos. “Os mortos vêem pelos olhos dos vivos”, disse Gullar. Sábio velho Gullar, que só achei graça porque era um xerox do vô Flávio.
Essa falta que você me faz, às vezes fica mais distante, me deixo levar pelos eventos que a cada dia ocupam mais meus dias, principalmente com as suas netas. Você é o PAI que eu quis, que eu escolhi, porque você me quis primeiro e muito, eu sei. Sei do esforço que você fez para me ter nos braços, PAI. Eu quero que Freud morra, exploda, cada vez que escuto ou leio o que ele fala sobre a busca do pai em cada um. Generalista do caralho. Ele jamais saberia o que estou sentindo sem a tua presença aqui.
Tudo ficou mais desgovernado, mesmo que você enquanto estava aqui não governasse muitas coisas, aparentemente. Se antes eu era aquela folhinha voando ao vento, com você para me falar sucessivamente para não ser essa folhinha, pense como que estou agora sem você aqui.
Como fui leviana, PAI. Se ao menos hoje eu pudesse voltar no tempo e te encontrar em ossos, haveria uma lista oceânica de perguntas que eu não fiz enquanto podia. Que baita trouxa, que baita lição. A minha pergunta de agora seria: O que é ovelhinha para você PAI?
(Silêncio)
Ainda sobre as perguntas que eu quero te fazer, mas sei que jamais terei as respostas, PAI. Por que você gostava tanto da música Stand By Me do John? E sempre a tocava e cantava para mim, inclusive em um dos teus shows, quando eventualmente te acompanhava na época. Acho até que você não cantava mais, ficava apenas como o maestro da sua banda, mas aquela noite você cantou pra mim, por que, PAI? O que você via nessa canção que você gostava tanto? Me diz por favor. Por favor… por favorzinho… vou continuar aqui esperando e colecionando todas elas, tá? Elas, as perguntas, ora!
(Silêncio)
Você me amava, PAI? Você me ama?
Fecham-se as cortinas.
