20 setembro 2026

número zero

é chegar no vazio que expressa exatemente o que existe 

a ausência de todas as coisas que um dia você colocou lá

segundo por segundo

sussurro por sussuro

carinho por carinho

zelo por zelo

sonho por sonho

dia após dia 

uma construção contínua que só você soube 

o tamanho que tinha

o trabalho que deu

as dores que suportou 

ventre cada dia mais largo

um corpo morfomizado 

ganhando peso

entristecendo 

acreditando

amor por amor

semente por semente

grão por grão

luta por luta

esperança por esperança

matar a tudo isso que você mesma criou 

é o número zero 

na sua cara

dando-lhe um tapa

no vazio

na falta 

das cores que sumiram

no céu azul 

que derreteu 

zero é o fim

e tambén o começo

mas nenhuma mãe deveria sentir isso

em vida

ela morta estaria mais presente

zerar a vida para quem quis 

começar com ela  

fertil

e certa

é a maior violência que se pode ter

a mãe morta

se esconde nas arestas escuras 

nas fendas do que resta 

no que restou

do número 

que não se conta

que não existe

que nunca existiu

sinto pena dela

delas

de nós

me perdoem.

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