Nada, nunca, me fez menos sentido do que existir um dia para se comemorar o "dia internacional da mulher", principalmente nesse ano do calendário gregoriano de 2026, ano em que completo 44 anos. Aparentemente o que a história conta, é que esse dia foi criado a partir de diversas lutas feministas, desde meados de fevereiro de 1909, com a finalidade de lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres, independentemente de divisões nacionais, étnicas, linguísticas, culturais, econômicas ou políticas.
Do alto da minha escassa racionalidade, o fato de existir o dia para se comemorar o dia da mulher, não é, ou não deveria ser uma questão para mim, deveria ser como qualquer outro dia do calendário. Não deveria nem mesmo eu dedicar meu tempo e pensamento para refletir sobre ele, que viagem! Mas vejam que ironia, não foi e não é assim que funciona. Esse acontecimento de atravessar a data, principalmente no dia de ontem, em meio a anos complexos em termos de violências (feminicídios, genocídios, estupros coletivos, guerras, entre outros), culminou em grande mal estar dentro de mim, e não somente por que o acho tão sem nexo, sem sentido, sem razão. Provavelmente ele contém algum outro gatilho mais profundo, que me exagerou a dor psíquica.
Confesso que todos os anos anteriores, desde que essa questão surgiu à tona: a de se "comemorar o dia da mulher", sempre fez surgir em mim uma sensação estranha, uma dubiedade, um borbulhar interno, misto de excitação com estranhamento, desconexão, algo de estranho e também desconhecido, do tipo: me felicitavam por esse dia, e eu não sabia o que dizer, sem nem ao menos ressoar um "obrigada" como resposta. Ao passo que sempre ao se aproximar essa data, o mesmo esquema afetivo, emotivo, degradante sentimental vinha à tona. E por que? Me questiono.
Estava eu agindo conforme ao que se era esperado de uma mulher nessa situação: sorrir ou enviar um coraçãozinho como resposta às mensagens? Estava eu sendo sincera com aquela comunicação muitas vezes atravessada por homens e mulheres que apareciam "do nada" para me felicitar? Que estranho eu ter que conviver com tamanha hipocrisia anual, pensava eu. E começava a me questionar o porquê estava sentido tudo aquilo. Se não havia e nunca houve importância alguma para mim, o que seria todo esse pesar de algo que nada era?
Na verdade essa reflexão posta em palavras só ocorreu, realmente, agora, quando consegui vomitar tudo o estava dentro de mim, fermentando. O que me ocorreu nessa instancia da vida foi que, juntei os acontecimentos recentes, tanto os meus pessoais, como os do mundo civilizatório contemporâneo, aos meus estudos atuais, culminando em teorias existencialistas de Sartre, o constante instante do devir de Nietzsche, o niilismo pessimista de Schopenhauer, as profundas e complexas teorias sobre as diferenças de gênero de Simone de Beauvoir, o erotismo de Bataille, as relações de poder sobre os corpos de Foucault, a modernidade líquida de Bauman e as questionáveis construções da linguagem pós-socrática cristã, cartesiana, exclusivista e finita, tão exaltada por Viviane Mosé entre outros grandes filósofos, historiados e pensadores modernos que são meus melhores amigos.
Ufa. Talvez tenha esquecido de mais uma porção deles e outros conceitos que me atravessam o ser diariamente. O fato é que: QUE PORRA é essa em que, homens e mulheres, do alto de suas vidas insignificantes e medíocres, acreditam que se deve parabenizar outro ser, cuja palavra denominada mulher é ao mesmo tempo assassinada, aniquilada, desqualificada, objetificada, subjulgada, escravizada, reduzida a uma mercadoria barata, que se pode manipular à vontade? Simplesmente NÃO FAZ SENTIDO ALGUM! Sério que existe alguém que não vê isso? Acho que me fiz clara, mas caso você que, me leu até aqui, não tenha compreendido a minha linha de raciocínio, pode questionar, abrirei o debate com maior prazer.
Portanto, não me venha com rosa, parabéns, blablabla qualquer. Antes de tomar meu tempo e o seu, pense. Reflita, tente adquirir algo que vejo com tão pouca frequencia nas pessoas, ultimamente, a capacidade de pensar, de imergir dentro de si, de tomar consciência da realidade que o cerca. Sei que é complexo viver dentro da nossa bolha civilizatória nos tempos de hoje, mas penso que se eu não falasse tudo isso ficaria novamente trancado em minha garganta e eu passaria o próximo ano pelo mesmo episódio de nojo e asco de todos os outros anos anteriores.
E aproveito essa janela de oportunidade midiática para AGRADECER imensamente aqueles que permanceram e seguiram suas vidas sem perder seu valoroso tempo em me parabenizar pelo dia mais ridículo de comemorar o dia de ultimamente.
Afinal de contas quem criou o dia dos dias mesmo? Por que há, afinal de contas, essa necessidade de se ter um dia dos dias para se comemorar? Tipo contar o tempo nada mais é que apenas olhar para o tempo que falta, ou o tempo que já passou, e nessa equação falta tudo, falta realidade, falta presença, falta senso de empatia, falta inteligência, falta respeito, falta amor próprio, falta muita coisa.
S2
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